4 de janeiro de 2016

NÃO SEJA FORTE

SALMO 88
 (Cântico. Salmo dos filhos de Corá. Salmo didático de Hemã)

"Ó SENHOR, Deus da minha salvação, dia e noite clamo diante de ti.
Chegue à tua presença a minha oração, inclina os ouvidos ao meu clamor.
Pois a minha alma está farta de males, e a minha vida já se abeira da morte.
Sou contado com os que baixam à cova; sou como um homem sem força,
atirado entre os mortos; como os feridos de morte que jazem na sepultura, dos quais já não te lembras; são desamparados de tuas mãos.
Puseste-me na mais profunda cova, nos lugares tenebrosos, nos abismos.
Sobre mim pesa a tua ira; tu me abates com todas as tuas ondas.
Apartaste de mim os meus conhecidos e me fizeste objeto de abominação para com eles; estou preso e não vejo como sair.
Os meus olhos desfalecem de aflição; 
dia após dia, venho clamando a ti, SENHOR,
e te levanto as minhas mãos.
Mostrarás tu prodígios aos mortos ou os finados se levantarão para te louvar?
Será referida a tua bondade na sepultura? A tua fidelidade, nos abismos?
Acaso, nas trevas se manifestam as tuas maravilhas?
E a tua justiça, na terra do esquecimento?
Mas eu, SENHOR, clamo a ti por socorro,
e antemanhã já se antecipa diante de ti a minha oração.
Por que rejeitas, SENHOR, a minha alma e ocultas de mim o rosto?
Ando aflito e prestes a expirar desde moço;
sob o peso dos teus terrores, estou desorientado.
Por sobre mim passaram as tuas iras, os teus terrores deram cabo de mim.
Eles me rodeiam como água, de contínuo; a um tempo me circundam.
Para longe de mim afastaste amigo e companheiro; 
os meus conhecidos são trevas."

    Você já se sentiu como esse salmista? Desamparado por Deus, desesperado em seu íntimo, com a sensação de incapacidade, esperando por um alívio que nunca chega ou com a impressão que somente coisas ruins acontecem? Eu já me senti assim, e tenho aprendido lições preciosas com essas circunstâncias e com esses sentimentos. A questão em voga é: Como você interpreta essas circunstâncias e sentimentos e como reage a isso?
     Alguns trechos da Palavra de Deus parecem não confortar, não trazer um final feliz, não responder a questionamentos, não conter promessas, mas mesmo assim, quando devidamente analisados, nos dão esperança. Essas passagens nos ensinam a enxergar a realidade da vida. Temos a tendência de romantizar o cristianismo e querer fugir a qualquer custo do sofrimento ou situações desagradáveis/desfavoráveis, mas a realidade é que o crente pode sofrer e a vida muitas vezes nos fará chorar. E acreditem, é libertador reconhecer isso! E esse salmo nos lembra que podemos (e devemos) ser honestos e sinceros com Deus quando isso acontecer.
     Observamos claramente o lamento do salmista (Hemã) nesses versículos. Em meio ao seu sofrimento e angustia, ele não hesita em expressar sua preocupação diante de Deus e derramar seus questionamentos. Muitas vezes evitamos esse tipo de “sinceridade” para não cometer equívocos, como orar de forma irreverente; expressar preocupação excessiva que pode ser interpretado como falta de confiança em Deus; aparentar rebeldia por não aceitar Seu plano; entre outros motivos. Porém, Hemã em seu cântico, nos ensina outra perspectiva dessa “sinceridade”. Ele mostra que quando se apresentou dessa maneira, estava reconhecendo quem é o seu Deus (“Deus da minha salvação” v.1); demonstrando ter fé em meio ao seu desespero (“clamo de dia e de noite” v.1); mostrando que tinha um relacionamento genuíno com Deus (ele correu para Deus e não de Deus); entregando seu fardo; e reconhecendo sua dependência nEle (humildade).
     É fantástico e esperançoso saber quem era Hemã (I Cr. 6.31-33 - leia o artigo na íntegra – clique aqui). Um músico piedoso, que serviu no tabernáculo depois no templo preservando a unidade (I Cr. 6.33-48), demonstrando submissão as suas autoridades (Davi e Salomão - I Cr. 25.6), buscando a excelência do que realizava (I Cr. 15; II Cr. 5.12-14), multiplicando o seu talento e habilidade (I Cr. 25 4-6), deixando um grande exemplo do que significa servir a Deus com conhecimento e beleza (I Cr. 25.5).
     Esse exemplo me leva a pensar se justifica (quando passamos por esses momentos que nos deixam confusos, inseguros, descontentes, etc.) abandonarmos a fé, o serviço a Deus e a comunidade? Justifica negligenciarmos os dons, os talentos e os relacionamentos? Certamente não. Não foi assim que Hemã agiu.
     Não carregue um fardo que não te pertence. Você não erra necessariamente por sentir-se desesperado, desamparado ou descontente. Não desanime quando a sua mente estiver confusa ou quando você começar a questionar a bondade e o amor de Deus. Não se entregue, não desista, corra para Ele, se derrame diante dEle! Pois mesmo quando não vemos, não sentimos, não entendemos ou até mesmo quando não queremos, Deus está lá e com toda a certeza sempre nos escutará (mesmo quando não responder)! Deus está lá agindo em prol do seu propósito já estabelecido. Portanto, não seja forte, não endureça seu coração, antes seja sincero, dependa mais de Deus! E enquanto passamos por isso, faça valer a pena sua existência, frutifique nas mãos de Deus, assim como fez esse piedoso salmista.
  

"Quando o meu espírito desanima, és tu quem conhece o caminho que devo seguir... Clamo a ti, Senhor, e digo: Tu és o meu refúgio; és tudo o que tenho na terra dos viventes." Salmo 142.3,5 (NVI)