28 de agosto de 2014

O RELATIVISMO E A MÚSICA

“Pode-se não ter certeza de nada, porém, de uma coisa o homem pós-moderno está convicto – o objetivo de não abrir espaço para os absolutos, sejam de Deus ou da própria razão humana – ciência. A ideia é a de cultivar as diferenças, de trabalhar com a incerteza.” Wagner Amaral

            Expressões como: “Não gostei ou gostei da música do culto hoje”; “A música me tocou, me fez sentir bem e leve”; “Prefiro ou me identifico mais com esta ou aquela música”; etc., são tão comuns, tão corriqueiros nos comentários feitos por membros das igrejas locais na atualidade. No fim, as preferências e gostos são a base do julgamento do que é bom e do que é certo dentro do ministério musical. Quando não se alcança estas conclusões baseado nestes critérios, o resultado em sua maioria é a crítica destrutiva, como: “Os músicos não tocam bem”; “A igreja tal é fria e sem visão”; etc. O relativismo incentiva a liberdade de expressão, que gera o questionamento e a insatisfação.
            No relativismo não há absolutos, tudo é subjetivo, que se traduz no sentimento, no prazer, que coloca o homem como centro e não a Deus. Isto é resultado do equivocado conceito que a música é uma arte de exprimir sentimentos. Mas afinal, onde surgiu esta ideia que a função da música é comover e portanto, isto a torna subjetiva ou relativa? Esta ideia surgiu do iluminismo e infelizmente, este conceito filosófico, não está só presente nos nossos dias, mas enraizado na mente e no coração de muitos músicos cristãos dentro das igrejas locais.
            O iluminismo foi um movimento filosófico social, explicado em parte, pela ascensão econômica da burguesia europeia no século XVIII. Suas principais características são a ênfase na experiência e na razão, pela desconfiança em relação às autoridades e à religião. O historiador Claude V. Palisca em seu livro História da Música Ocidental, explica:

[...] o movimento complexo conhecido pelo nome de iluminismo começou com uma revolta do espírito: uma revolta contra a religião sobrenatural e a Igreja, em prol da religião natural e da moral prática; contra a metafísica, em prol do senso comum, da psicologia empírica, da ciência aplicada e da sociologia; contra o formalismo, em prol da naturalidade; contra a autoridade, em prol da liberdade do indivíduo; contra os privilégios, em prol da igualdade de direitos e da instrução universal.

Na história da música, é no movimento iluminista que inicia a era Romântica nas artes. É também o surgimento do cosmopolitismo nas artes desencadeando na música como uma linguagem universal, ou seja, a música não deveria ser limitada pelas fronteiras nacionais, mas mesmo assim, deveria ser nobre, expressiva, despojada de complexidade técnicas e capaz de agradar qualquer indivíduo, independente do seu nível cultural.
Neste novo ideal de música, deveria ser por meio da imitação da natureza, ou seja, do sentimento. Este conceito é expresso por meio de um discurso sonoro que seria avaliado em função de como contribuiria ou não para o bem-estar do ser humano. É interessante observar que esta imposição ou renovação de função e conceito na área musical da época, não foi pela iniciativa de músicos, mas sim, de filósofos. Os primeiros filósofos da era das luzes ou iluminismo (essa era foi um movimento cultural da elite europeia do século XVIII que pregou contra o abuso do poder da Igreja e do Estado herdado da Idade Média, a fim de reformar a sociedade e o conceito do conhecimento), foram Locke e Hume, da Inglaterra, e Mostesquieu e Voltaire, na França, mas Rousseau, um importante filósofo, teórico político, escritor e compositor suíço que foi o principal pensador e o idealizador, desta "fase de luzes".
            “É preciso dizer que a vida não foi mais governada pelos filósofos no século XVIII do que em qualquer outro período da história; os sistemas de pensamento respondem e sofrem a influência, das condições de vida, pelo menos no mesmo grau em que influenciam essas mesmas condições.” Claude V. Palisca.
            A crescente difusão da filosofia sentimentalista e a centralização do homem foi a partir da ascensão da classe média da época. É curioso observar a sequência dos fatos, pois começou assim, com a valorização das pessoas comuns e com seus sentimentos comuns. Não havia mais uma obrigatoriedade de entender a estrutura musical, pois o objetivo era cativar e comover o ouvinte e não de causar perplexidade. A música destinava-se a amadores, e este público portanto, cada vez mais tinha autonomia para exigir música fácil de tocar e de entender.
            Estes filósofos então, começaram a criticar e a desmerecer os compositores que precederam a esta época, justamente por causa da complexidade de suas peças, e foi por causa destes fatos, que a ideia de substituir o antigo pelo novo se tornou sinônimo de progresso e isto, perdura até os dias atuais.
            A estética do século XVIII defendia a função da música, como aquela que devia exprimir sentimentos, valorizando o prazer do indivíduo para que assim, isto lhe fosse agradável e satisfatório.
            O relativismo coloca o homem como centro, em suas emoções, seus sentimentos e seu prazer, este ponto de vista está moldando e cada vez mais penetrando na mente dos cristãos. A verdade bíblica é objetiva, independente dos sentimentos, ela é absoluta apesar das experiências. Nosso alvo não deve ser a satisfação do eu, como base do contentamento e a motivação para a adoração, mas nosso alvo, independente do sistema deste mundo, é levar cativo todo pensamento à obediência de Cristo (II Co. 10.5).
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Bibliografia:

AMARAL, Wagner Lima. Apologética. Apostila da disciplina de Apologética do curso bacharel em teologia do Seminário Batista Regular de São Paulo, São Paulo, 2011.

PALISCA, Claude V.; GROUT, Donald J. História da música ocidental. São Paulo: Gradiva, 1997.